Edição Brasileira - Ano II - Edição nº 36, Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017

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Samarco: um 'anticase' de gerenciamento de crise

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Mar de Lama

Quem é da área de Comunicação, principalmente no estado de Minas Gerais, já foi apresentado ao menos a um dos inúmeros cases e prêmios seja de comunicação interna, planejamento estratégico e demais extensões de comunicação corporativa da Samarco Mineração, joint venture da Vale com a australiana BHP Billiton (as duas maiores empresas do mundo no ramo da mineração).

Há uma semana é possível observar como vem sendo conduzida a gestão de crise de imagem e reputação da empresa responsável pelo rompimento de duas barragens de rejeitos no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), causando uma das maiores (se não a maior) catástrofes socioambientais do século. A tragédia foi considerada uma avalanche equivalente ao volume de 10 Lagoas Rodrigo de Freitas (no Rio de Janeiro) que se abateu sobre 300 casas e destruiu não só a arquitetura, mas a vida e a memória de quem morava ali, indo muito além dos 6 mortos e 26 desaparecidos, números suficientemente perturbadores.

Inicialmente o trabalho de relações públicas foi bastante organizado e completo, substituíram o site oficial da empresa por um hotsite com mensagem do presidente, informações sobre ações assistenciais, telefone de uma Central de Relacionamento, comunicados, link para as redes sociais e contatos de todos os assessores de imprensa do grupo. Além disso, disponibilizaram porta-vozes para dar explicações em todos os meios (coletiva de imprensa, entrevistas e nas redes sociais) e eles têm utilizado as redes sociais como disseminadoras de informação e como meios de divulgação de seus boletins. Apesar de toda a revolta exibida nos canais por parte da população, a equipe segue o objetivo de informar.

A companhia até então lamentou o ocorrido e estava se mostrando disposta a informar e estar presente durante todo o plano de ação emergencial. No entanto, os dias estão se passando, a lama se espalha cada vez mais, mais bichos estão morrendo pelo caminho, mais água se contaminando e o desastre está tomando proporções que estão fugindo do controle da empresa - e isso parece estar afetando o plano de comunicação para gerenciamento de crise.

A mineradora ainda não assumiu a culpa, não divulgou causas ou motivos que possam ter levado ao rompimento das duas barragens, tem impedido jornalistas mais ácidos de participarem de suas coletivas, as indagações nas redes sociais estão cada vez mais elaboradas e ficando sem respostas. Afinal o plano de ação emergencial não inclui analisar a lama para determinar se ela oferece algum risco à saúde, ou seja, nem Samarco, nem governos municipal, estadual ou federal estão providenciando tal análise; não inclui ouvir a população atingida e desabrigada, não inclui admitir falhas e apresentar as razões.

Muito pelo contrário, colocando os pés pelas mãos, lançaram a infeliz campanha #SomosTodosSamarco com o intuito de melhorar a imagem da empresa, no entanto comparam o lixo jogado nas ruas com a tragédia e se orgulham da quantidade de empregos que a empresa gera. Conteúdos totalmente inapropriados para o momento. A página da campanha no Facebook é apresentada como não oficial, mas em diversas postagens e em sua descrição, traz um tom que parece contradizer essa informação.

Enfim, esperava-se outro posicionamento da equipe da Samarco, primeira empresa de minério de ferro do mundo a receber a certificação ISO 14001 para todas as etapas do processo produtivo, para a qual o Sistema de Gestão Ambiental sempre foi um compromisso na busca de minimizar, cada vez mais, os impactos ambientais de suas atividades.

Enfim, a mineração brasileira está entre as seis maiores do mundo e é comercializada para mais de 50 países e, exatamente por isso e por estarmos falando de vidas e biodiversidade, é que o episódio não deveria ficar sem final, as famílias sem um norte e a lama de uma hora para outra não poderia evaporar.

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