Edição Brasileira - Ano II - Edição nº 36, Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017

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A hora e a vez de meter a mão na lama

A hora e a vez de meter a mão na lama

 

Lama: s.f. Mistura de terra, argila e água, de que resulta uma massa pastosa.

As coisas seriam mais simples na vida se vistas apenas pelo ângulo de um dicionário.

Depois de mais de 20 anos da tragédia ambiental do Exxon Valdez no Golfo do Alasca, a história nos mostra o contrário – quando se trata de interesses econômicos, nada parece simples. Assistimos a tantos outros desastres, como o da BP no Golfo do México, em 2010, e o da Shell no delta do Rio Niger, na Nigéria, no ano seguinte, que a opinião pública se acostumou a oscilar entre indignação e indiferença.

E, como se já não bastasse o mar de lama que estamos vergonhosamente presenciando na vida pública nacional há mais de um ano, fomos surpreendidos pela catástrofe ambiental em que se transformou o desastre na barragem de Fundão, em Minas Gerais, no último dia 5 de novembro (saiba mais).

Surpreendidos fomos, sim, enquanto sociedade. Mas as empresas envolvidas nesse desastre teriam a obrigação legal, profissional e moral de demonstrar extrema mobilização e eficiência diante do gerenciamento das consequências. No entanto, está sendo demonstrado claramente que não estavam preparadas para lidar com fatos dessa magnitude (saiba mais).

Perguntas inocentes – aonde estavam os planos de contingenciamento? Que tipo de previsões e redundâncias estavam formalizadas nas estruturas das empresas envolvidas?

As respostas? Nos parece claro que, diante do silêncio inicial e a demora em vir a público para lidar com o fato, nem as empresas Samarco e Vale ou, muito menos, o Governo Federal estavam minimamente preparados para tratar de forma prática e multidisciplinar frente à catástrofe ambiental e humana que se seguiu ao rompimento da barragem.

Estarrecidos, o Brasil e a comunidade internacional (saiba mais) vêm acompanhando a inépcia dos responsáveis para gerenciar as conseqüências e até mesmo da incompetência para estruturar sua comunicação junto ao público e à mídia (saiba mais).

Solidária, a sociedade brasileira se mobilizou mais uma vez para socorrer as vítimas, e cobrar dos responsáveis ações imediatas. E, mais uma vez, trabalhamos sozinhos em meio à lama. O Governo Federal, na incompetência que se transformou em sua marca registrada, ficou em silêncio, e a ministra do Meio Ambiente ‘desapareceu’ no meio da multidão.

Ou seja, não bastasse a magnitude dessa tragédia anunciada, visto que um estudo da secretaria de meio ambiente do governo estadual já apontava para o risco em quase 30 barragens na região (saiba mais), sofremos a orfandade institucional em mais um momento em que se exige uma gestão pública presente, ativa e eficiente.

Ao contrário, o Executivo trabalhou na sombra da noite para que, dias depois, fosse publicado um decreto federal que tenta instituir acidentes em barragens como “desastre natural” e, assim, escorregar das responsabilidades, seguros e indenizações cabíveis (saiba mais). Mais uma vez, a sociedade brasileira leva um tapa no rosto e será tida como idiota se não se manifestar de forma veemente contra essa manipulação clara das regras em benefício alheio.

E isso se reflete diretamente também nas empresas envolvidas na operação da Samarco Mineração, que é uma joint venture entre as duas maiores empresas de mineração mundiais - a australiana BHP Billiton e a Vale do Rio Doce. Essa última, antes uma empresa privada e superavitária, vem sofrendo uma ‘reestatização’ por interesses políticos desde o governo Lula, o que termina por abrir caminhos diretos para a responsabilização do atual Governo Federal pelo desastre da barragem do Fundão. É o exemplo perfeito do tiro que saiu pela culatra.

Como se pode ver, a lama atingiu muito mais do que o ecossistema e as populações que dele dependem na região do Rio Doce. Inundou gabinetes ainda mais e manchou os ternos dos executivos e políticos.

Portanto, o peso só aumenta sobre os ombros da sociedade brasileira. Cabe a nós estarmos vigilantes e ativos em todas as instâncias. Cabe a nós cobrarmos agilidade e responsabilidade para a assistência às vítimas. Cabe a nós exigirmos a minimização da catástrofe ambiental e nos envolvermos com o planejamento e a implementação da recuperação do ecossistema desde já. Cabe a nós estarmos vigilantes e exigirmos a punição exemplar dos responsáveis, quer seja na esfera pública como no meio empresarial.

Infelizmente, 20 dias depois do acidente, assistimos agora à lama atingir a foz do rio no Espírito Santo e desaguar no Oceano Atlântico, tendo colocado em risco também o ecossistema da região, onde vive, por exemplo, o tradicional caranguejo guaiamu (saiba mais). Em todo esse trágico trajeto desde Minas Gerais até o mar, a flora foi varrida do cenário, a fauna foi exterminada, as comunidades ribeirinhas tiveram sua existência apagada, os índios perderam suas raízes seculares.

Mas, ao vermos vidas serem resgatadas em meio ao barro duas semanas depois, podemos ainda acreditar na esperança de recuperar todo esse ecossistema a longo prazo. A não ser que aconteça a maior catástrofe humana de todas – a indiferença da nossa sociedade.

 

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